Garçom

Garçom


É o emprego que foi minha porta de entrada para o mundo de trabalho da vida adulta.

Primeiro trabalhei em um restaurante árabe, graças à indicação do meu pai, lugar bem característico, parecia que ao entrar automaticamente se teletransportava para o oriente médio, as luzes, o clima, a ambientação. Havia imigrantes de diversas partes do mundo, em geral do oriente médio, América latina e África. Nem sempre se entendia tudo o que se era falado ali dentro, mesmo a fronte do atendimento muitas vezes não falava português, o que era uma loucura, mas de alguma forma cliente e atendente se entendiam. E essas peculiaridades o tornavam único.


Também era um ponto de referência política e antro de pessoas revolucionárias, liberais, artísticas, dissidentes e dos mais diversos tipos.

Havia shows ao vivo corriqueiramente, palestras, workshops. Tudo isso colaborava para ser um ambiente ímpar e rico culturalmente.


Em horário de pico virava uma baderna, ficava tão lotado que ficava difícil se locomover pelo espaço, similar como a experiência de estar num ônibus lotado. Os garçons não tinham opção a não ser abrir mão temporariamente de cumprir a função pela impossibilidade de ir e vir das mesas.

Era cansativo, mas também muito proveitoso poder trabalhar e viver a experiência do lugar. A clientela alternativa e a gestão branda faziam com que trabalhar lá, mesmo exaustivo pelas altas demandas e horas trabalhadas, fosse algo descontraído, instigante e diversificado.

Por vezes passava um pouco a sensação de lugar bagunçado, mas também muito acolhedor e familiar.


Aliás antes de começar a trabalhar lá eu estava em estado depressivo, e o movimento proporcionado pela ocupação me fez dar uma boa melhorada.


Enfim, algo que gostava muito também era o ar de liberdade que ali exalava. Um dia, passei em frente a um restaurante mais "tradicional", e vi como os garçons tinham modus operandi engessado e frases inteiras decoradas a serem ditas exatamente da mesma forma para os clientes, com os superiores supervisionando de perto para ver se cada detalhe da performance estava sendo executada da forma programada. Humpf. Quadrado. Sem alma. Chato. Uma robotização para artificializar a criação de um atendimento padronizado e teoricamente de melhor padrão.

Eu nunca me encaixaria nisso. Seria desgastante cada minuto. Não gosto de performances engessadas. Dá muito bem para informar e ser bem receptivo e carismático sem scripts prontos roteirizados de como falar.

Me sentiria o mais subalterno possível. Passo.


Mas felizmente nos dois lugares que trabalhei frequentemente não foi assim.

Diferente do primeiro lugar, que era restaurante/bar e tinha essa pegada mais de diversidade geral, no segundo o ambiente era mais de restaurante apenas mesmo e ambiente mais conceitualmente limpo. Porém ainda com algo de proposta alternativa e respeito à individualidade dos funcionários. Com alguns padrões de funcionamento, mas ainda permitindo liberdade na condução do atendimento.


E o que penso sobre essa ocupação, é como, apesar de ser algo bem de base, ainda assim acho bastante digno e gratificante.

Eu sempre fui um pouco preguiçoso para realizar atividades. Mas na logística de um restaurante, o papel de um garçom, apesar de bem simples com funções nada complexas, acaba sendo extremamente eficiente para o bom funcionamento do estabelecimento. A cozinha foca em preparar os pedidos e os clientes focam em apenas desfrutar da experiência. Me sinto prestativo, útil, colaborando para o lucro do negócio e satisfação do consumidor.

Diferente de outros freelas que já fiz, que mesmo com tarefas mais complexas e intelectuais, me sentia não tão útil, pelo resultado não ser tão rápido ou concreto.


Em uma história que vi uma vez, havia uma garota que o sonho dela de profissão quando criança era ser funcionária de achados e perdidos de uma estação de trem, pois dizia que sempre que alguém vinha recuperar algo perdido dizia obrigado para a funcionária, e ela queria receber muitos obrigados.

Achei bem poético isso, e algo interessante é que no emprego de garçom também recebo muitos obrigados, nem todos agradecem, mas muitos sim, e por mais que fique algo corriqueiro e por coisas simples, acho que me sinto bem por receber tantos obrigados.


Obrigado,

Garçom.

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