Ensaio sobre a Existência

 

Abertura: O peso e o mistério da vida

Nasci dentro de um enigma. Não lembro de ter assinado contrato algum, mas a cada dia acordo como se houvesse um dever invisível, uma missão cuja origem não sei ao certo. A vida chega como uma correnteza: às vezes leve, às vezes brutal, sempre me arrastando para frente. Tento me perguntar se há sentido nisso tudo ou se o próprio questionamento é o único sentido possível.

O sofrimento não é acidente, é companheiro de viagem. A alegria aparece, mas não permanece; o tédio se instala; e o desejo insiste em prolongar a luta. Como se a vida fosse uma balança oscilando entre o querer e o esvaziar-se.

Albert Camus escreveu: “O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo.” E talvez seja isso mesmo: o silêncio do mundo ecoa, e cada pensamento meu tenta ser uma resposta a ele.


A busca por propósito

Já me perguntei inúmeras vezes: existe uma missão a ser cumprida? Ou somos apenas viajantes tentando enfeitar o vazio com histórias? Há momentos em que sinto que estou preso a papéis já escritos por outros. “É como se eu tivesse assinado um contrato, que na verdade nunca assinei”, anotei certa vez. Esse contrato invisível parece definir não apenas meus passos, mas até a expectativa dos outros sobre mim.

Nietzsche provoca: “Quem tem um porquê enfrenta qualquer como.” Mas e quando o porquê se esconde, quando o “como” é um peso sem direção? O que resta é o esforço de não desistir, de continuar seguindo mesmo sem mapa, mesmo sem bússola.


O sofrimento e a travessia

A dor tem sido mestra. Às vezes me sinto em repetição infinita: personagens mudam, cenários mudam, mas o enredo parece sempre o mesmo — a prisão entre o que é levável e o que é insuportável. É nesse ciclo que a vida se mostra mais dura.

Schopenhauer disse: “A vida oscila, como um pêndulo, entre o sofrimento e o tédio.” Em minhas anotações, reconheço esse pêndulo. Mas também percebo algo além: um espaço de criação, um instante breve em que a dor se transforma em palavra, e a palavra em alívio.

Minhas crises, minhas rupturas, até mesmo o surto que me lançou em silêncio forçado, revelaram paradoxalmente uma coisa: sobreviver já é uma forma de arte.


A liberdade e o fardo da escolha

Liberdade, para mim, não é leveza: é peso. Ser livre é ter que escolher, mas nem sempre consigo me autodirigir. Muitas vezes, meu silêncio é invadido por apelos emocionais externos — pedidos, expectativas, olhares. E quando cedo a eles, sinto que perco a mim mesmo.

Jean-Paul Sartre escreveu: “O homem está condenado a ser livre.” Condenado: talvez seja a palavra mais precisa. Porque liberdade não é apenas poder escolher, mas também carregar o fardo das escolhas não feitas.

E no entanto, dentro dessa condenação, existe uma chance: a de escrever o próprio caminho, mesmo que sobre pedras instáveis.


A espiritualidade como horizonte

Deus aparece em minhas notas como um horizonte, não como certeza. Às vezes é súplica: “Como Deus quer que eu morra?” Outras vezes, é desejo de encerrar a missão antes da hora, como quem pede férias da existência.

Mas também há gratidão. Mesmo sem respostas, agradeço pelos instantes em que a dor se dissolve e sinto paz, ainda que breve. A espiritualidade, para mim, é diálogo com o invisível — não uma fuga, mas um apelo.

Dostoiévski escreveu: “Sem Deus, tudo é permitido.” Mas e se até com Deus tudo já for permitido? Talvez a fé não esteja em proibições ou permissões, mas no gesto de continuar caminhando, mesmo sem garantias.


Conclusão provisória: Habitar o mistério

Não chego a conclusões definitivas. A vida não cabe em fórmulas, e se coubesse, provavelmente perderia seu encanto. O que encontro, ao juntar pensamentos, frases e citações, é um convite: habitar o mistério.

A existência não precisa ser explicada por inteiro para ser vivida. Talvez a paz não esteja em vencer a luta, mas em aceitá-la como parte da obra. E nesse processo, cada palavra escrita, cada pensamento registrado, cada citação guardada é um tijolo no edifício da minha própria travessia.

Assim, não busco mais um fim absoluto, mas a possibilidade de narrar a jornada. Porque se a vida é luta, que seja também expressão. Se é sofrimento, que seja também criação.

Comentários

Adriana disse…
"[...] um dos motivos de apreciar a produção textual é por poder me deparar com textos assim, e de forma recíproca, pelo gosto de procurar expressar coisas interessantes, que outras pessoas também poderão vir a se identificar."
Olá, Eduardo. Considerando o objetivo de escrever para que outras pessoas se identifiquem com 'suas escritas', posso dizer que ele foi alcançado, pois, apesar de eu não conseguir explicar o quanto me identifiquei com suas palavras, saiba que me identifiquei, e não foi pouco. Dessa forma, parabéns por sua coragem de expor seus pensamentos e de se expor. Muito obrigada por traduzir parte do que se passa aqui dentro de mim... Em 50 anos de vida, ainda estou aprendendo a me permitir essa exposição, por isso fico feliz em encontrar jovens talentos com tamanha sensibilidade na 'leitura da vida' e do além dela... do mistério... Gratidão por tantos ensinamentos:
"A vida chega como uma correnteza: às vezes leve, às vezes brutal, sempre me arrastando para frente." "O que resta é o esforço de não desistir, de continuar seguindo mesmo sem mapa, mesmo sem bússola." "[...]o silêncio do mundo ecoa, e cada pensamento meu tenta ser uma resposta a ele." "Talvez a fé não esteja em proibições ou permissões, mas no gesto de continuar caminhando, mesmo sem garantias." "A vida não cabe em fórmulas, e se coubesse, provavelmente perderia seu encanto."
Eduardo Rafael disse…
Obrigado pelo comentário! Fico feliz que os textos tenham alcançado seus propósitos!

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