O Andarilho Mascarado

 O andarilho mascarado irradiando angústia pelas ruas passava, e por meio de folhetos poéticos, por ajuda apelava. Entre becos escuros recitava, sobre as apunhaladas que recebeu da vida, de seu sofrimento, numa encenação eloquente. E a plateia impressionada com seu show comovente colaborava com o artista carente.

Contava ele, nas suas apresentações, várias histórias diferentes, de como sua vida foi arruinada e perdeu os seus parentes, ou então de como ainda criança foi levado como escravo para um circo insolente. Eram todas mentiras obviamente, mas bem convincente o sujeito enganava o público inocente. 

Para ele não importava, ele tinha um plano em mente, e faria o necessário para executá-lo adequadamente.



O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.








Eis que o poeta foi ficando conhecido e começou a vender livrinhos com seus versos, mas agora não mais escrevia sobre suas pseudo-experiências e sim sobre algo mais complexo: sentimentos.

Agora ele se baseava em suas próprias sensações e articulava com as palavras em suas escrituras de forma que os leitores enxergassem algo muito mais profundo em seus poemas, algo que não conheciam realmente, mas que achavam conhecer, por captar a forte emoção do que eles não compreendiam direito.

A habilidade daquele poeta era reconhecida por todos que de sua arte provavam, mas o que todos não sabiam era de onde que o mascarado conseguia inspiração.



E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.





Ninguém sabia realmente o verdadeiro motivo dele ter ido para lá, de ter escrito aqueles versos e se dedicar tanto por algo. Ninguém exceto sua amada, Yasmin.

Pois a máscara que o andarilho usava, era para poder esconder sua verdadeira face, o rosto de quem ama, de quem viajou dezenas de quilômetros e se dedicou somente para realizar o último desejo dela.

 













Com uma doença terminal, Yasmin não queria passar seus últimos dias de vida em um hospital, e sim viver o pouco que lhe restava.Tudo o que o poeta fez foi para anestesiar a dor dela, e com sucesso, pois seus últimos dias foram os melhores que poderiam ser em sua companhia.

Quando chegou a hora de sua amada partir, o poeta se envenenou e morreu junto, ambos com um sorriso no rosto, e deixando como legado, seus versos, prova deste amor. 


E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.






Poema: Autopsicografia, João Pessoa


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