Relações humanas e sociedade
O nó entre eu e o outro
Carrego comigo uma sensação persistente: a de estar sempre em dívida com as pessoas. Não importa o quanto faça, sempre há algo que parece faltar, uma entrega incompleta, um gesto não correspondido. Às vezes não é nem um pedido explícito — basta um olhar, um silêncio carregado, um apelo sutil, e já me vejo cedendo. Como se a minha liberdade fosse feita de fios puxados de fora.
As relações humanas, para mim, são campo de tensão. São ao mesmo tempo abrigo e prisão, alimento e veneno. Aproximar-se do outro é correr o risco de se perder; afastar-se é cair no vazio.
O peso da aprovação
Percebo que muitos se aproximam em busca de algo: aprovação, validação, reflexo de si mesmos. E quando não ofereço esse reflexo, nasce a frustração. Não é que eu negue de propósito; é que nem sempre consigo sustentar o papel que projetam em mim.
Escrevi: “Com todos se repete: as pessoas sentem isso, buscam aprovação em mim também, e se frustram.”
O filósofo Søren Kierkegaard alertava: “A porta da felicidade abre para fora; quem a força em sentido contrário a fecha ainda mais.” Talvez seja isso: quanto mais tentamos arrancar reconhecimento dos outros, mais nos frustramos. E ainda assim, na prática, me sinto capturado nesse jogo de expectativas.
Famílias e prisões invisíveis
No centro desse labirinto, a família. Escrevi, sem rodeios: “Meus pais sempre me torturaram de forma sutil, imperceptível.” Não era violência escancarada, mas uma pressão invisível, uma manipulação disfarçada de normalidade. O tipo de coisa que não deixa marcas no corpo, mas molda a alma.
O tempo passou, os cenários mudaram, mas a repetição permaneceu. “Estou vivendo há anos a mesma coisa; só mudam os nomes, as fórmulas, os personagens.” O enredo é o mesmo: o da prisão invisível, oscilando entre momentos leváveis e outros absolutamente sufocantes.
Kafka certa vez escreveu: “Uma gaiola saiu em busca de um pássaro.” E eu penso: talvez a gaiola já estivesse dentro de mim desde o começo, moldada por essas relações de origem.
Sociedade e alienação
Não é apenas no círculo íntimo que isso se repete. A própria sociedade parece funcionar em fórmulas: aprovação e rejeição, manipulação e espetáculo. Muitas vezes sinto como se o mundo fosse um teatro onde cada um exige papéis dos outros, sem jamais permitir improviso.
“Estou enjaulado numa realidade que oscila entre levável e muito sofrível.” A frase que escrevi sobre minha vida em casa cabe também para a vida em sociedade. O sistema exige, cobra, formata. E, no entanto, há em mim um desejo de quebrar essa ordem artificial, de viver de modo mais simples, natural, próximo do essencial.
Rousseau disse: “O homem nasceu livre, e por toda parte encontra-se acorrentado.” Suas correntes talvez não sejam visíveis, mas apertam.
A busca por um espaço próprio
Daí nasce a urgência de encontrar um espaço onde eu possa existir sem ceder à manipulação constante. Uma casa que respeite meus limites. Um ambiente onde seja possível criar, escrever, respirar sem sentir invasão.
Não é apenas questão de paredes e teto: é sobre território interior. É sobre poder escolher quando abrir as portas e quando fechá-las. É sobre a coragem de dizer “não” sem sentir que isso significa uma traição.
Escrevi: “Quero entender como posso rejeitar algo quando nitidamente estou sem foco para me autodirecionar.” Esse é o dilema: como defender o próprio espaço quando a própria direção vacila?
E no entanto, continuo tentando. Porque acredito que exista um jeito de relacionar-se sem perder-se. Que amizades verdadeiras e relações autênticas não sufocam, mas respiram junto.
O risco e a dádiva do encontro
Se aprendi algo até aqui, é que não existe vida sem o outro. Somos moldados por encontros, ainda que dolorosos. O isolamento absoluto é impossível e, se fosse possível, talvez fosse insuportável.
Mas também aprendi que não se pode entregar tudo. A doação total ao outro é também uma forma de autodestruição.
As relações humanas são rios que se encontram, mas que seguem correndo em leitos distintos. O perigo está em esquecer que o meu leito é só meu, e que, se secar, o encontro deixa de existir.
Por isso, termino esse capítulo com uma imagem: que cada encontro seja como dois rios que se cruzam, trocam águas, se tocam profundamente — mas sem jamais deixar de correr separados rumo ao mar.
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